A Forca – 1859: pena de morte em Caruaru

A área compreendendo a atual Praça do Rosário, o Lactário e o Cafundó, que, em meados do século XIX, formava um só descampado, era conhecida como “Largo da Forca” desde quando aconteceu, em 26/01/1859, uma quarta-feira, a execução, pela forca, do escravo Quirino, por crime de parricídio, após o imperador Dom Pedro II em 26/10/1858, como última estância, negar o pedido de clemência.

A condenação à forca se deu, por ter o réu, em 24/06/1856, morto, por motivos fúteis, com uma foice, em Malhada de Pedra, o seu pai e também escravo, senhor Luiz, ambos pertencentes a José Florêncio Júnior.

Essa execução, foi, provavelmente, a única ocorrida em Caruaru, desde que não existem menções, nem antes e nem depois dessa data, a nenhum outro acontecimento semelhante nos registros históricos da cidade.

O colaborador Pedro Trancoso (pseudônimo do Juiz de Direito Dr. Manoel Correia Lima, nosso primeiro jornalista) do Diário de Pernambuco, em Caruaru, testemunha ocular da execução, descreveu o acontecimento para aquele jornal do seguinte modo:

“No lugar do Cafundó, desta cidade, pelas 10 horas da manhã, onde, previamente, fora a mando do juiz das execuções, afincada a forca na qual se havia de dar morte ao criminoso Quirino, foi esse efetivamente morto. De véspera afluíram à cidade um crescido número de pessoas que ansiosos se apresentaram ao lugar da execução.

Na hora marcada, em frente à cadeia pública, se reuniu uma grande multidão, atraída pelo acontecimento, a Força Policial, composta por praças de linhas, polícia, a guarda nacional, o réu Quirino e o também prisioneiro Florêncio José Baptista, este no papel de carrasco.

Quando o porta-voz do Júri começou a ler a sentença que condenou o infeliz Quirino a pena de morte, por haver assassinado seu velho pai, começaram todos a seguir em direção à forca.

Todos os olhares estavam fixados no infeliz Quirino. A sua direita caminhava nosso vigário, o padre Antônio Freire de Carvalho (Vigarinho) e logo atrás o preso Florêncio José Baptista, que na mão direita carregava a corda que pendia do pescoço do infeliz.

O silêncio dominava, a multidão crescia e o protagonista deste lúgubre acontecimento, indiferente a tudo que o cercava.

Quando chegaram ao local da execução, o juiz que presidia o ato e a força policial tomaram os lugares que a lei determinava, enquanto o infeliz Quirino caminhou com passo firme
para junto da forca, de onde pediu perdão a todos quantos havia ofendido com seu crime e declarou de todo coração, que perdoava todos que haviam concorrido para sua morte e subiu a escada com facilidade e só no alto o carrasco principiou a sua missão de amarrar a corda com um laço, que devia tirar-lhe a vida, ao que se prestou o infeliz sem a menor repugnância.

A ansiedade da multidão cresceu. Um movimento surdo e continuado se fez ouvir em todo o espaço ocupado pela multidão que testemunhava a ação da lei sobre um criminoso, quando o carrasco segurando o infeliz pelos pés, o fez girar sobre si mesmo.

Não é possível descrever o que no momento se passou no interior de tantos indivíduos de condições diversas e do pobre infeliz, que impelido pela força do carrasco e repelido pela fraqueza da corda que devia separá-lo do meio de nós, ficou estendido no chão, tinha rompido a corda.

Nesse mesmo instante, um brado de misericórdia meu Deus se fez ouvir. Eram as mulheres, homens e meninos, horrorizados com o ato.

O infeliz foi de novo guiado para o sacrifício, para consumação do ato ao qual havia sido destinado, subiu pela segunda vez a escada, dessa vez com ajuda por já se encontrar machucado, onde um novo laço prendeu-lhe o pescoço, que dessa feita se deslocando, deu morte ao infeliz, que hoje ocupa espaço nas entranhas da terra.

Consummatum est! A sociedade está vingada e a lei foi cumprida.

Em todo o correr do drama horroroso com que me ocupo, um vulto bem saliente se fez conhecer, mostrou um espírito evangélico superior.

O nosso vigário, tendo visitado dias continuados ao infeliz Quirino, quase não o deixou a não ser para cumprimento dos deveres de seu ministério. Era sublime, era digno de admiração ver-se o ministro do altar, compenetrado de sua santa missão, procurar arrancar uma alma da perdição. Palavras cheias de unção saiam de seus lábios, lágrimas profundas de dor intensa banhavam seu rosto, dor profunda magoava-lhe o coração, a caridade, essa santa virtude que faz dos fracos fortes e dos pobres ricos, exprime tudo quanto se pode dizer do comportamento do padre Antônio Freire de Carvalho.”

Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio
Engenheiro civil
Pesquisador e historiador

1 Comment on "A Forca – 1859: pena de morte em Caruaru"

  1. Muito bom e um importante documento sobre a nossa história. Me permito parodiar o saudoso Carlos Batista: Hélio Florêncio é a “imagem viva da nossa história.”

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