A quase mudança do nome de Caruaru em 1905

No dia 01 de setembro de 1901, o editorial de 1ª página do Diário de Pernambuco começava afirmando que “a bela Caruaru, situada 30 léguas acima do Recife, bem poderia se chamar Portopolis, a cidade do coronel Rodrigues Porto.”

O editorial continuava enumerando as belezas e virtudes da cidade, sempre associando-as com as qualidades do cel. Neco Porto “que embora com recursos diminutos em relação a outros municípios, diante dos quais Caruaru é bem pobre, consegue deixar os traços inapagáveis do seu patriotismo.”

Citando as obras de iniciativa do coronel com recursos próprios, registrava as construções: “do excelente prédio com aspecto moderno e elegante do PAÇO MUNICIPAL (se referia a construção do prédio primitivo, ainda térreo, do atual Palácio do Bispo, inicialmente pensado para ser um hospital, que em verdade, contou com forte aporte de recursos estaduais); do AÇOUGUE (essa construção não se tratava do belíssimo prédio de 1919, se referia a um açougue anterior); do PAREDÃO, poderosa represa das água do rio Ipojuca, oferecendo excelente banho (provavelmente se referia a algumas obras de restauração, desde que o Paredão vinha do ano de 1853); o início da construção da 1ª PONTE sobre o Rio Ipojuca (a que ficaria conhecida como a Ponte Velha, inaugurada em 1902), com fins de facilitar a chegada de cargueiros dos municípios limítrofes, obrigados a travessia do rio e no desejo certamente de expandir a cidade para a zona sul”. Por fim, citava “o belíssimo GRUPO ESCOLAR JOAQUIM NABUCO e a moderna CADEIA PÚBLICA da cidade, conseguidos pelo prestígio do coronel Neco Porto junto ao governo estadual”.

Mencionava também a “admirável limpeza das ruas e a iluminação noturna abundante a querosene, mantido pela municipalidade”; lembrava “que carroças públicas percorriam todos os pontos da cidade para receberem o lixo do varrimento das ruas e, de porta em porta, os depósitos das casas de famílias”; além de também estar iniciando “um serviço de higiene e vacinação popular”.

A seguir, afirmava “que tudo era fruto de grande tenacidade e decidido empenho em servir a causa pública, que mantinha boa camaradagem até com os adversários e, inclusive, que estes eram os primeiros a lhe fazerem justiça”, para finalmente, após várias outras linhas, sempre elogiando os trabalhos realizados, concluir: “eis porque dissemos que Caruaru bem poderia se chamar PORTOPOLIS, a cidade do coronel Rodrigues Porto.”

E a coisa foi tomando vulto, o coronel Neco Porto, chefe político indiscutível do lugar, foi eleito e reeleito 06 (seis) vezes consecutivas, afora a eleição anulada de 1891 – os mandatos eram de 03 (três) anos, com o político precisando renunciar no último ano, para poder se candidatar novamente – sempre com apoio da oligarquia implantada em Pernambuco pelo conselheiro Francisco de Assis Rosa e Silva, aliás, que também era o dono do Diário de Pernambuco, o jornal que lhe tinha coberto de elogios.

Em 1905 aconteceu dos B.O. (que vou traduzir aqui por bajuladores) da sociedade local, incentivados, por baixo dos panos, pelo próprio coronel, tentaram efetivamente mudar o nome de Caruaru para Portopolis ou Cidade do Porto, inclusive com a aprovação já garantida, desde que contavam com o apoio de 08 (oito) dos 09 (nove) vereadores.

Mas a repercussão negativa foi muito forte, pois além de não contar com um bom apoio popular, começaram também a pipocar críticas vindas de vários setores e lugares, a ponto de não restar ao coronel, embora se dizendo lisonjeado, que não a de desautorizar a proposta. Como compensação, a Rua da Matriz (Avenida Rio Branco e Praça Henrique Pinto) recebeu, na época, o nome de Rua Coronel Neco Porto.

O coronel Neco Porto comandou direta ou indiretamente (período que os vice prefeitos assumiam quando precisava renunciar para se candidatar à reeleição) os destinos de Caruaru de 15/11/1895 até 02/02/1912, ocasião que foi obrigado a renunciar após os episódios que ficaram conhecidos como “Revolução Pernambucana de 1911” e que aconteceram após a eleição fraudada para o governo estadual de 05/11/1911, que teve como consequência imediata o fim da oligarquia do Conselheiro Rosa e Silva.

Foi assim que Caruaru manteve o seu nome, por pouco não se chamando Portopolis ou cidade do Porto. Haja palco!

Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio

Engenheiro civil Pesquisador e historiador

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