Carta para um amigo

De uns tempos para cá, comecei a escrever cartas para amigos diletos. Evidente que não as lacro em envelopes de papel, com uma fileira de selos, nem me dirijo aos Correios para o atendente ali pegar aquele carimbo e tome porrada sobre o envelope, de estremecer até a alma do endereçado.

Meu caro, escrevo-lhe essa, sem compromisso nenhum de sua parte, em me responder, aliás não deve. Essa é uma singela homenagem em forma de carta, mesmo que hoje em dia escrever carta seja démodé. Evidente que sobre o ilustre amigo com certeza não sou o único a lhe prestar tal reverência, mas entendo nunca ser demais a homenagem. Portanto na quietude destes dias pandêmicos, resolvi escrever ao amigo que de fato é possuidor de sentimentos de nobreza.

Mas me permita afirmar com todas as letras que sou uma pessoa abençoada. Você, amigo, vai entender. Depois de longos anos ausente dessa nossa terrinha, a qual permaneceu sempre comigo, na recordação de todos aqueles longos anos já distantes, quis Deus que o conspícuo destino cumprisse sua sina, trazendo-me de volta para esse meu aconchego, o país de Caruaru.

Não tive a grata satisfação de conhecê-lo antes, época de nossa juventude em Caruaru, mas no reencontro com minha gente me deparo com o cidadão de al – cunha Nobreza. Pois é, quis Deus dá-me a oportunidade de conhecer você, tão genuíno caruaruense, filho do nobre casal Edécio Francisco de Melo e Rita Bezerra de Melo, ele, empresário de visão desenvolvimentista e que muito contribuiu para nossa cidade.

Lembra que nosso primeiro encontro ocorreu em frente ao colégio Diocesano de Caruaru. De forma simples, sem circunlóquios nem apresentações intermediarias. Ali estávamos na expectativa do término das aulas do período matutino, eu, à espera de minha filha Vitória, com dois anos na época; e você, de sua netinha. Eu nem imaginava estar frente a frente com uma enciclopédia viva da história de Caruaru, você, amigo Dorgival.

Mas voltemos ao colégio Diocesano, ali em frente à lanchonete de dona Carminha, na casa da esquina, quase em frente à portaria principal do colégio. Enquanto esperávamos as crianças, entre conversas, nem nos apercebemos que logo firmaríamos amizade que perdura até hoje e que muito me honra. Ali, em nossas conversas, trocamos muitas informações, inclusive detalhes que passou para mim da trajetória de meu avó e de meu tio, João Teotônio e seu filho Manoel Teotônio respectivamente, empresários do ramo de transporte coletivo, os quais conheceu bem.

Já naqueles momentos, pude me aperceber dos sentimentos de solidariedade, gentileza e cortesia, sempre de bom humor. Um verdadeiro nobre, um homem que traz no seu amago a dignidade em sua trajetória de vida dedicada à família, ao trabalho e ao cultivo da amizade.

No decorrer dos recorrentes encontros ali no colégio, outros foram acontecendo em meio a eventos sociais em que nos deparávamos um com o outro, a exemplo das reuniões do Lions Club Caruaru do qual foi presidente de 1998 a 1999. No então Instituto Histórico de Caruaru, do qual é sócio fundador, bem como na Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras da qual é frequentador assíduo dos eventos sociais naquela casa, a exemplo das notáveis “Serestas na Praça”.

Meu amigo, ao falar da alcunha Nobreza, da qual é detentor e por unanimidade, digo que é justa tal reverência, por se tratar de homem ilustre, virtuoso, como honestidade, amabilidade, lealdade e outros atributos das dimensões mais elevadas que o ser humano pode expressar, pondo-se livremente em essencial servidão à comunidade.

No homem nobre, está a origem dos bons valores. Servir é uma habilidade intrínseca à maturidade. Dela surge o sentimento de unidade e na nobreza moral, criam-se valores, enobrece-se a alma de magnanimidade, elevação, generosidade. O homem nobre busca a profundidade em tudo o que faz e vê o mundo com perspectivas que a maioria dos humanos nem ousa imaginar. A nobreza transforma, alimenta, impulsiona, difere o homem egrégio do vulgar e o faz um gigante, como você, meu amigo.

Quem escolhe a nobreza o faz por livre vontade e assume a servidão à sociedade como estado de vida e passa a render culto à sabedoria, em busca contínua do virtuosismo, à distância da superficialidade. A trilogia dos mais nobres sentimentos humanos, a pureza d’alma, o amor e a gratidão tornam a convivência mais leve. O homem que busca a excelência é o que se guia pela nobreza, tendo-a como selo indelével no coração.

Caro e ilustre amigo, vou ficando por aqui, mas consciente de que seria necessário muito mais para que pudesse falar de sua nobreza, desse paradigmático cidadão e filho de Caruaru.

Agildo Galdino Ferreira
Membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, e da União Brasileiras de Escritores

 

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