Caruaru, a formação

Marco Zero - Foto de 1930 – Colorida posteriormente

Caruaru começou a tomar forma no dia 02 de junho de 1681 quando o governador Aires de Souza de Castro concedeu à família Rodrigues de Sá, liderada pelo Cônego Simão Rodrigues de Sá, após viagem realizada pela região por alguns familiares e amigos, atendendo requerimento assinado pelo cônego Simão Rodrigues de Sá, pelo padre Antônio Rodrigues, por Simão Rodrigues de Sá (sobrinho e homônimo do cônego), pelo alferes João Rodrigues de Sá e por Francisco Rodrigues de Sá, Miguel Forte Velho, Eusébio de Oliveira Monteiro, Maria Rodrigues de Sá, Eugênia Rodrigues de Sá e Cristino Rodrigues de Sá, uma sesmaria (concessão de terras com intuito de desenvolver a agricultura e a criação de gado no interior da província) situada à margem esquerda do Rio Ipojuca, nas proximidades do Morro do Caruru.

Antiga Igreja da Matriz tendo ao lado a Prefeitura Municipal – Foto restaurada e colorida

A ocupação das terras se deu ainda naquele século, quando o sobrinho e homônimo do cônego, o peticionário Simão Rodrigues de Sá, fundou a Fazenda Caruru.
No ano de 1754 um filho de Simão, de nome Simão Rodrigues Duro, morador da Fazenda Caruru, casou com Antônia Thereza de Jesus, uma filha dos fundadores do Sítio de Altinho. Dessa união nasceram três filhos: Joaquina Rodrigues de Jesus (1754), José Rodrigues de Jesus (1756) e Maria da Conceição Rodrigues de Jesus (1759).

Quando do falecimento dos seus pais em 1768, José Rodrigues de Jesus, então com 12 anos e sua irmã Maria da Conceição ficaram sob os cuidados da irmã mais velha, Joaquina Rodrigues de Jesus, casada com Manoel da Silva Nunes, um descendente dos fundadores de Bezerros, e foram morar com eles na Fazenda Juriti, proveniente do dote do casamento da irmã, ficando a Fazenda Caruru abandonada.

Em 1776, José Rodrigues de Jesus, então com 20 anos, muito trabalhador, após desentendimentos da irmã caçula com o cunhado, por motivos fúteis, retirou-se da Fazenda Juriti e levando consigo sua irmã, um bom número de escravos e alguns trabalhadores, foi morar na Fazenda Caruru, que lhes pertencia por direito de herança, e onde, pela localização à margem do Rio Ipojuca, na divisa entre as serras do lado direito do rio, onde suas terras abrejadas com muita água e de excelente qualidade permitiam a proliferação das plantações do café, da cana, da mandioca e das frutas e, do lado esquerdo, relativamente plana e rica em pastagem, possibilitava a criação do gado ser rapidamente desenvolvida.

Em 1781, José Rodrigues de Jesus, com 25 anos de idade, casou com sua sobrinha (o Código Civil Brasileiro da época, alterado apenas em 1916, permitia esse tipo de união) Maria do Rosário Nunes, filha da sua irmã mais velha, que contava 13 anos de idade (na época era comum o casamento de meninas com essa idade, principalmente no interior do estado).

Ainda naquele ano, após a indispensável licença do Bispado de Olinda, o fazendeiro iniciou a construção de uma pequena capela em honra de Nossa Senhora da Conceição, de quem sua mãe fora devota e como homenagem à sua irmã Maria da Conceição, inaugurando-a em 05 de outubro de 1782, com bênção solene e celebração da primeira missa pelo pároco de São José dos Bezerros (atual Bezerros), padre Félix Xavier de Lima e Mello.

A inclemência do clima de outras regiões agrestinas, fez a fazenda tornar-se um lugar para onde convergiam muitos trabalhadores. Sua posição geográfica com suas condições especiais, tornaram-lhe parte do caminho das boiadas, que tinham a capital do estado e a zona da mata, com seus inúmeros engenhos de cana de açúcar, como o destino maior dos rebanhos de gado, da carne, do leite e do couro.

Por conta disso, a fazenda que possuía apenas a casa grande, a senzala e um curral, logo ganharia mais uma meia dúzia de casas.

Por outro lado, em frente à capela de Nossa Senhora da Conceição teve início um pequeno comércio, desde que nos finais de semana quando os padres de Bezerros vinham celebrar as missas, realizar batizados, confissões ou casamentos, os moradores da redondeza aproveitavam para, além de rever amigos, parentes e conhecidos, trazerem alguns produtos e pequenas criações para realizarem pequenas vendas ou trocas, antes e depois das celebrações religiosas.

O próprio José Rodrigues de Jesus, para assegurar ainda mais o fortalecimento da feirinha e, por consequência, da sua própria propriedade, incentivava esse comércio e nele tomava parte ativa, pois no fundo era ele mesmo quem realmente dispunha dos três mais importantes produtos, os rebanhos bovino, caprino e ovino. Além de ainda adquirir a sobra dos produtos dos feirantes para alimentação de seus escravos.

Essa conjunção de fatores, mostrou-se fundamental para consolidação de uma feirinha semanal e formação de um arruado.

Em 1788, apenas seis anos após a inauguração da sua capela, José Rodrigues de Jesus solicitou ao bispo de Olinda a nomeação de um capelão com residência fixa na fazenda, com fim de prover um melhor atendimento religioso às pessoas fazenda, da redondeza e também para aqueles em trânsito, comunicando, inclusive, que já mandara erguer uma casa para lhe servir de moradia. O Bispo atendendo sua solicitação, nomeou um Capelão, determinando que esse residisse na casa que lhe fora destinada.

Feira de Caruaru – Foto de 31 de julho de 1895 – Colorida posteriormente

Por outro lado, e apesar de José Rodrigues de Jesus continuar se referindo a Caruaru, em documentos pós 1789, ainda como uma fazenda-de-gado, a verdade é que o lugar, naquela época, já era uma povoação, como se pode deduzir pela leitura de alguns documentos.

A exemplo de “Livro de Provisões” que registra em 01 de agosto de 1789 a nomeação do nosso primeiro professor: “Provisão Régia de ler, escrever e contar, passada a favor de João Francisco de Souza para ensinar na Freguesia de São José do Sertão dos Bezerros no lugar do Caruru” e mais outro mencionando que “em 1794 o lugar já possuía um crescido número de casas e em 1795 possuía quase 1000 habitantes”.

Em 27 de julho de 1811 as terras caruaruenses que até então integravam o município de Olinda, passaram a pertencer à vila de Vitória de Santo Antão e, quando esta, em termos de freguesia (divisão religiosa) foi dividida em duas e criada a de Bezerros, Caruaru passou a pertencer a essa nova freguesia.

Por outro lado, mesmo após o falecimento de José Rodrigues de Jesus, ocorrida em setembro de 1820, aos 64 anos de idade, Caruaru, já com vida própria, continuou a crescer e se desenvolver, tanto é, assim, que após o desmembramento da freguesia de Bezerros, ocorrido em 12 de abril de 1839, nossas terras passaram a integrar o município de Bonito. A Lei Municipal nº 3 de 02 de dezembro de 1839, elevou Caruaru a categoria de distrito – Distrito do Caruru., embora continuasse a pertencer a Freguesia de Bezerros, até que em 02 de maio de 1844, a Lei Provincial nº 133 criou a freguesia de São Caetano da Raposa, passando Caruaru, embora continuando a pertencer juridicamente a Bonito, a integrar essa nova freguesia.

Por sua vez, Caruaru foi elevada à categoria de vila no dia 16 de agosto de 1848, tornando-se, em face da Lei Provincial nº 212, sede de município.

Embora, que na prática, ainda permaneceria ligada a vila de Bonito por mais treze meses, até que ocorreu em 16 de setembro de 1849 a instalação oficial da Vila e a posse dos primeiros sete vereadores eleitos.

Configurando, desse modo, a autonomia política e administrativa em nível municipal, posto que dependia da Assembleia Provincial (Estadual), principalmente, no que se referia às questões financeiras.

Por fim, Caruaru foi elevada à condição de cidade no dia 18 de maio de 1857 (a primeira do agreste e sertão pernambucano), através da Lei Provincial nº 416 de autoria do deputado provincial Francisco de Paula Baptista.

A bem da verdade, na época, a elevação de uma vila à categoria de cidade, estava apenas para o reconhecimento do desenvolvimento do lugar, desde que nenhum efeito prático, político, social ou administrativo incorporava ao lugar, com a Câmara Municipal permanecendo com os mesmos direitos, deveres e limitações.

Foi assim que Caruaru nasceu e se formou, pequenina, sem beleza, de uma simples fazenda de gado, criada pelo trabalho, pela imaginação, pela criatividade e pela disposição dos homens, de muitos homens, naturais e adotivos. Haja palco!

Hélio Fernando de Vasconcelos Florêncio
Engenheiro civil
Pesquisador e historiador

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