COM RECIBO OU SEM RECIBO?

Ser moralista está na moda, principalmente nas redes sociais. E como muitos atores do cotidiano parecem cínicos ou dissimulados. A maioria posa de pessoa de felicidade irretocável, moral ilibada e, muitos, assumem o papel de palmatória do mundo. Registro que não me “incluo fora disso”. Quando sou observado criticamente, devo transmitir impressão semelhante. Somos assim. Shakespeare já dizia: cada qual vida afora usa diversas máscaras e desempenha variados papéis.

Ultimamente, um papel muito requisitado tem sido o de moralista de plantão. Os alvos preferenciais são, naturalmente, os políticos, sem distinção de cor ou plumagem. Vem da Grécia Antiga a lição. Quando as coisas andavam ruins, os gregos escolhiam um magote de bodes e os sacrificavam aos deuses para expiar os males do mundo. Atualmente, os políticos são os bodes expiatórios de todas as nossas mazelas. Jogar pedra na Geni pode aliviar temporariamente as consciências, mas não resolve nada. E poucos se dispõem a discutir as coisas como as coisas são. Apenas um exemplo: nas últimas semanas se colocou a indigesta questão de separar, no festival de delações premiadas em curso, aqueles acusados que se apropriaram de recursos não contabilizados para proveito próprio e aqueles que se utilizaram deles para atividades partidárias ou eleitorais. Parece a mesma coisa, mas não é, alertam algumas personalidades dos mundos político e jurídico que não têm medo de dar a cara à tapa.

Fico muito à vontade para falar nisso pois lá atrás, quando este assunto não entrara na pauta da mídia, em entrevistas radiofônicas que permanecem gravadas, levantei o raciocínio. Para mim, existe uma grande diferença. O caixa 2, como reação natural à burocracia excessiva e ao abuso dos impostos escorchantes, é uma generalizada prática social pré-existente, historicamente enraizada e disseminada no corpo social. Tenho dito, para desagrado de quem não quer ver, que o Brasil é o país do caixa 2. Não conheço ninguém que contabilize todas as suas transações financeiras. Quem já viveu uma campanha política sabe que não é raro o eleitor ir direto na lata: “Doutor, eu tô precisando consertar o meu telhado…” Ou uma das muitas variáveis de um voto posto à venda para quem der mais.

Quero deixar bem claro que não é o meu propósito defender ou amenizar qualquer conduta ilícita. Apenas registro que caixa 2 não é privilégio do mundo da política. Pelo contrário, é uma praxe social disseminada, generalizada, praticada quotidianamente por milhões de brasileiros que nem imaginam estar subtraindo recursos da educação e da saúde, através da sonegação, tanto quanto o político que ele esculhamba nas redes sociais. “Com recibo ou sem recibo?” Atire a primeira pedra o leitor que não foi submetido a esse dilema constrangedor. Então, como diz o Novo Testamento, antes de falar do olho do vizinho é preciso primeiro limpar os seus próprios olhos. Ou ética só vale para os outros?


José Nivaldo Junior
Publicitário. Membro da Academia
Pernambucana de Letras.

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