Crise é Aviso de Mudança!

A sociedade brasileira assiste perplexa a uma sucessão de acontecimentos que funcionam como uma tapa na cara de cada um. Até antes da paralização dos caminhoneiros a crise estava, para a maioria, no âmbito do abstrato, das discussões teóricas, das críticas aos políticos, do xingamento nas redes sociais. Apenas os desempregados e suas famílias sentiam a coisa na pele.

O abrupto desabastecimento funcionou como um choque de realidade. E não apenas exibiu as fragilidades do modelo que optou pelo transporte rodoviário e pelo uso do petróleo como combustível. Mostrou também que somente o respeito aos direitos alheios é capaz de manter o equilíbrio social. E que apenas o desprendimento em relação aos seus próprios interesses é capaz de conduzir o país a soluções sustentáveis para manter o equilíbrio econômico.

Como consertar as mazelas, como adequar o País à realidade do mundo atual sem que ninguém abra mão de seus próprios privilégios?

Um exemplo cabal disso foi dado pelo mais alto judiciário brasileiro. Retirou o foro privilegiado dos políticos e manteve o mesmíssimo privilégio para uma quantidade incalculável de pessoas, inclusive para eles próprios. Quando se discutem as necessárias reformas, ninguém quer perder nada, mesmo que seja uma aberração usurpada da coletividade a custas de pressões ou negociações ilegítimas.

A transformação das estradas em estacionamentos nos leva a uma reflexão: protestar é um direito inquestionável. Agir como donos do espaço público, impedindo o direito constitucional de ir e vir, é um simples exercício de arbitrariedade.

As dificuldades do momento político e econômico despertam na direita empedernida e mesmo em setores sociais de frágeis convicções democráticas clamores por uma intervenção militar ou soluções similares de inspiração fascista. Definitivamente, esse não é o caminho. Mal comparando, é como o sujeito estar cheio de problemas, tomar um porre e ficar no melhor dos mundos, até acordar no dia seguinte com os mesmos problemas e mais com uma ressaca desgraçada.

A democracia, que garante inclusive o direito à livre manifestação do pensamento e o direito de greve, não é perfeita, mas é o melhor dos regimes. Inclusive porque permite que as questões sejam claramente discutidas e as soluções possam ser encontradas com o respeito aos direitos políticos das pessoas. Sem a prática da censura às comunicações e ao direito de opinar, sem sequestros, torturas, assassinatos de opositores do governo.

Crise, gostam de dizer os historiadores, é sinal de que as coisas não vão continuar como estão. Então, mãos à obra. Pois cabe ao conjunto da sociedade encontrar soluções para os problemas. Dentro da ordem democrática. Respeitando os direitos de todos. Sabendo que antigos privilégios não cabem mais no mundo de hoje.

Mudar, reformar , são providências indispensáveis. Retroceder é um escapismo irresponsável. Assim, o grande desafio para os brasileiros é promover as mudanças sem andar para trás e sem sucumbir aos falsos encantos do autoritarismo. Sem cair na sedução dos pregadores da paz dos cemitérios.

Um novo modelo se impõe. Todo parto é doloroso. Porém pode trazer uma nova vida, cheia de vigor e futuro.

Como sempre sou otimista. E me permito mencionar um mandamento dos otimistas. Reconheço as grandes dificuldades do momento mas acredito que todo fim é um recomeço. E no fim, tudo vai dar certo. Se ainda não deu, é porque não chegou ao fim.

José Nivaldo Junior

Publicitário. Historiador. Especialista em Comunicação Política. Da Academia Pernambucana de Letras

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