Da liberdade de ouvir “aquela” música e não sentir absolutamente… nada!

Sempre tive uma relação interessante com a música. Cada nota, cada melodia, cada tom de uma determinada canção tem alma, tem história e tem, acima de tudo, memória. Isso vale para filmes, personagens e vale pra gente também. Quem nunca imaginou a própria vida como um grande enredo de filme, uma grande trama de novela ou um romance de um livro? Mais que os personagens que personificamos ou não, acredito que o que nos marca de verdade é a música.

Eu, particularmente, penso e sinto assim e costumo dizer que minha vida tem trilha sonora. Algumas músicas têm sabor de infância. É impossível ouvi-las sem automaticamente ser transportada para aquele parque, aquele quintal. Imediatamente somos levados e estamos em meio a brincadeiras de criança. Há músicas que nos remetem a fechamentos de ciclos. Formaturas, conclusões de curso, jornadas findas. Eu nunca me esqueci da melodia e da sensação ao ouvir “Como Nossos Pais” interpretada por Elis Regina na conclusão do ensino médio ou da melodia de “Amigos para Sempre” cantada por Agnaldo Rayol na formatura do curso superior. A sensação é única, indescritível e nos acompanha para vida inteira.

Cada um, certamente, tem uma ou algumas músicas que soam como o frescor das gotas de orvalho em flor. Mas, no mundo das memórias musicais, nem tudo são flores, melodias e boas lembranças. E quando se tem guardado, em algum lugar íntimo e só nosso, aquela música que nos remete a algo que queremos esquecer? A melodia surge e o mais profundo silêncio nos invade. Nesse, e só nesse exato momento, a leveza vira um grilhão dos mais pesados. Muitas vezes, passam meses, anos e a impressão surge implacável. Pode ser devastador tanto quanto decepcionante, até o dia que a mágica acontece!

Um belo dia ou numa bela noite, presa num trânsito caótico, a rádio dá aquele “loopy” e inesperadamente, sem nenhum preparo prévio, sem qualquer aviso, você começa a ouvir aquela canção que foi seu algoz por tanto tempo. E você pára, e ouve e sente a canção, a melodia, os versos que antes percorriam e dilaceravam sua carne da maneira mais cruel e lenta até sufocar a alma, já não te afligem. Aquele nó na garganta de outrora dar lugar à contemplação de um tempo, uma fase ou período ao qual você pertenceu mas não vive mais lá. E você não sente aquela inquietude. Se pega cantarolando a canção com a leveza de quem teve os grilhões arrebentados pelo amadurecimento de alguém que cresceu internamente, desabrochou e não tem mais nada preso no passado que a assombrava. E isso é libertador!

Foi incomparável a sensação. Sentir-se livre. Ser livre. Sempre teremos memórias e lembranças sejam de fatos, de pessoas, de amores… e isso faz parte de quem fomos e de quem somos. Mas essas lembranças não podem nem devem ter um peso maior que o necessário. Na verdade, não devem ter peso algum. A nossa história deve ser algo para levarmos conosco como validação da jornada que fizemos e dos caminhos que percorremos. Nada além disso. Porque quando se carrega em demasia pesos voltados para o passado, o futuro não flui, o rio não segue e a água não se renova. É quase uma catarse Aristotélica. Uma purificação. E poucas coisas são tão libertadoras quanto enfrentar nossos medos… poucas coisas são tão libertadoras quanto ouvir “aquela” música e não sentir absolutamente… nada. Experimenta!!

Vanna Sales

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