Do Jesus das Artes ao Cristo dos Evangelhos

Embora historicamente saiba-se que o nascimento de Jesus Cristo dificilmente tenha ocorrido em dezembro, a celebração do Natal é importante para estimular as pessoas a refletirem sobre a pessoa e os ensinamentos de Jesus Cristo. No entanto, a imagem que se tem acerca do Messias é, por vezes, eivada de anacronismos e distorções históricas, conferindo-lhe arquetipias que não entram em consonância com o ambiente da Galileia do primeiro século.

Exemplos dessa natureza encontram-se nas artes. Nas obras do pintor italiano Rafaello Sanzio são vistas características renascentistas, sejam nas roupas ou nas fisionomias das personagens ilustradas, diferentemente do contexto histórico dos tempos de Jesus. Até mesmo no famoso quadro ‘A Última Ceia’, do gênio Leonardo Da Vinci, apresenta disparidade no que concerne à relação histórica. No Oriente Médio, as pessoas não participam das refeições sentadas em cadeiras, mas reclinadas, utilizando a mão direita para manusear os alimentos. A disposição da sala era em formato de triclínio, com três leitos inclinados em volta de uma mesa. Era essa a organização inclusive nas salas romanas, poderio político daquela época.
Portanto, vale a pena refletir um pouco sobre o contexto do nascimento de Jesus. Os relatos bíblicos oferecem uma visão mais ampla do que a apresentada em filmes, desenhos e peças teatrais, que ‘contaminam’ a ótica da população com estereótipos. Por exemplo, no Evangelho segundo escreveu São Lucas, conta-se que José e Maria vão a Belém por causa do censo decretado por César Augusto, quando Quirino era governador da Síria. Ao contrário do que se imagina, Maria não saiu de Nazaré prestes a dar à luz, praticamente sentindo contrações de parto, como muitas vezes é apresentado na televisão. A expressão “estando eles ali”, no versículo 06 do capítulo 02, dá a ideia que eles estivessem no local há alguns dias, provavelmente algumas semanas ou até um mês.

No versículo 07 do mesmo capítulo, há a informação que, a mãe do Salvador deu à luz, envolveu-O em panos e deitou-O em uma manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. No grego, a palavra traduzida por ‘hospedaria’ é katalumati, que possui uma ideia diferente da hospedaria moderna, mas refere-se a um aposento para hóspedes, ou seja, um quarto para alugar. Como o quarto estava ocupado, eles ficaram no espaço, em frente à casa, onde costumavam guardar os animais. A manjedoura, costumeiramente, era de pedra e não de madeira.

O fato de Jesus ter sido colocado em uma manjedoura já aponta para o posterior testemunho de João Batista, que Jesus seria “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1:29). Mais do que um líder, um revolucionário ou um mestre, Jesus é a expressão do caráter do Pai que habita em Luz Inacessível. O carpinteiro da Judeia que triunfou sem inflar o ego não apenas mudou o calendário. Ainda hoje, sua mensagem modifica vidas, transforma histórias, acende esperança no horizonte de quem claudica pelo caminho da existência. Jesus é Deus com rosto, procurando um coração humano que o acolha, como aquela humilde manjedoura de Belém.

Jénerson Alves – Jornalista e membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel

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