Fé e ação, no diário da história

Os primeiros raios do sol despontaram antes das 5 da manhã, refletindo-se nas paredes brancas do seminário da Prainha, em Fortaleza – CE. No calendário em cima do birô do bispo, Dom Luiz Antonio dos Santos, assinalava: quarta feira, 30 de novembro de 1870. Na agenda do dia, mais uma ordenação de seminarista.

Obedecendo a rotina rígida do seminário, Cícero Romão Baptista, na juventude dos seus 26 anos, acordara com um misto de emoções e certamente aquela sensação boa que os vitoriosos sentem: eis o dia de sua ordenação – a missão que escolhera aos 12 anos de idade – de evangelizar a sua gente, mais do que isso, ser um instrumento Divino para unir fé e ação social pelos conterrâneos sertanejos, tão carentes de tudo.

Seria uma cerimônia simples, e longe dos olhos das pessoas mais importantes de sua vida: seu pai – já na eternidade – a sua mãe e as duas irmãs. Vencer quase 1.200 km a cavalo, no percurso ida e volta do Crato para Fortaleza, para 3 mulheres, seria impraticável.

Naquela manhã, em recolhimento e orações, como não retroagir no tempo e relembrar a longa viagem e a boa sensação de ver o grande seminário pela primeira vez, naquele dia 7 de março de 1865, em companhia do querido primo José Marrocos, dois jovens sertanejos cheios de sonhos… e uma ponta de tristeza, agora pela falta do parente e confidente de todas as horas!

A severidade da rotina, as horas de descontração, até alguns tensionamentos com professores por questionar temas sensíveis para o clero, as poucas saídas do seminário para conhecer os espaços da cidade grande, horas a fio na biblioteca conhecendo a cultura universal…seu olhar percorreu mais uma vez as paredes da capela, onde passou tantas horas em oração e contemplação, talvez imaginando o futuro como padre naquele sertão de onde viera.

O que fazer para amenizar o sofrimento dos conterrâneos, vítimas das secas e toda sorte de flagelos… não há como servir a Cristo sem estar a serviço dos mais humildes, era uma das suas certezas.

As horas avançaram, e uma última conferida: paramentos novos, rosário em mãos, sapatos lustrados, barba feita e cabelos alinhados, unhas cortadas, orações revisadas… e o relógio aponta que chegara o momento!

Diante do olhar cético do reitor francês Pierre Auguste Chevalier e sobre a presidência do barbudo dom Luiz Antonio (primeiro bispo cearense) ocorreu a cerimônia de ordenação, obedecendo os rituais e de uma forma simples e pontual.

A primeira missão foi designada: selar um cavalo e partir de volta para o Crato, suas origens. Talvez uma premiação, ou quem sabe uma punição.

Quem sabe passou na cabeça de alguém ao vê-lo partir: vá embora com seus questionamentos e não volte mais, tu serás esquecido pelo tempo e por todos nós!

E assim começou um dos mais importantes capítulos da religiosidade e política brasileira.

Está nas páginas da história, 152 anos depois do ocorrido e 178 anos após o nascimento do brilhante nordestino, fato ocorrido em 24/03/1844.

Viva o Padre Cícero, viva o Nordeste, viva a cultura brasileira!

José Urbano
Prof. de história, palestrante, cordelista, radialista, técnico em educação. @joseurbano_

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