INÍCIO DAS ATIVIDADES CULTURAIS EM CARUARU – 1856

Essa foto de 1924 registra entre outros, o imponente prédio do antigo Mercado de Farinha, situado na Rua Duque de Caxias, inaugurado no ano de 1924, durante a administração do prefeito Celso Galvão (1922 – 1925), uma obra do mestre Rodolpho Vasconcellos, sendo um dos poucos prédios antigos ainda preservados da cidade. Atualmente, neste local, funciona o Memorial da Feira, que abriga uma coleção razoável de peças e fotos da nossa história. 

Por sua vez, em 1856 foi nomeado Juiz de Direito da Comarca de Bonito, mas cuja sede era localizada em Caruaru, o Dr. Manoel Correia Lima, que aqui exerceu suas funções por três anos, entre 1856 e 1858. Foi nosso primeiro jornalista, sempre escrevendo artigos para os principais jornais do Recife, usando diversos pseudônimos, quase sempre sobre o cotidiano de Caruaru. 

Dr. Correia Lima foi o principal responsável pelas primeiras sementes culturais semeadas no solo fértil caruaruense, desde que nos finais de semana estava sempre promovendo reuniões literárias, apresentações de músicas, danças, teatro, poesias, tocatas de violão e ensaios da banda musical Conservadora. 

É dessas reuniões, desse seu pioneirismo, que se originou o acentuado gosto do caruaru-ense pelas letras e artes e levou Caruaru a posição de destaque entre as comunidades do agres-te pernambucano. Nessa atividade foi ajudado pelo promotor público Martins Pereira – que chegaria a desembargador do estado – pelo rábula Antônio Florêncio de Carvalho Ametista, pelo professor Silvestre Antônio de Oliveira Mello, pelo tabelião e músico Gregorinho, 

pelo professor João Izidro Gonçalves da Cruz, além do francês Jean Pegot. 

Hoje, totalmente esquecido, não dá nome a uma simples rua, quando deveria nominar uma importante avenida, um teatro, uma escola ou um Centro Cultural. Nosso juiz, o Dr. Manoel Correia Lima, apesar do pouco tempo em Caruaru, mas pelo muito que fez, é um dos grandes injustiçados da nossa história. 

Aliás, foi também por sua sugestão que a “Conservadora”, nossa primeira sociedade musical, foi fundada em 1857 pelo tabelião público Gregorinho, pelo capitalista Pedro “Faz Tudo”, por Juvêncio Mariz, cunhado e concunhado de Gregorinho, e pelo professor de primeiras letras, João Izidro Gonçalves da Cruz, todos excelentes músicos com instrumentos musicais importados da Europa pelo coronel João Vieira de Mello e Silva. 

Ainda em 1863, Juvêncio Mariz, após desentendimentos políticos com o coronel João Vi-eira de Mello, contando com a participação mais uma vez do seu concunhado Gregorinho e de seu cunhado Pedro “Faz tudo” fundou a segunda sociedade musical da terra, a Banda Liberal. 

Vem também dessa época, os primeiros e belos trabalhos arquitetônicos de Caruaru realizados sob o comando do mestre Chiquinho Vasconcelos, pai do nosso maior construtor Rodolpho Vasconcellos, o qual, influenciado pelo pai, se tornaria mais que um construtor, se tornaria o escultor dos mais belos palácios e residências da Caruaru antiga, e também o surgimento dos primeiros emboladores, tocadores de viola e repentistas. 

Em março de 1883 foi fundado em Caruaru o Club Litterario Caruaruense por inciativa do tenente José Francisco Paes Barreto, seu primeiro presidente. Esse clube, o primeiro social da cidade, era uma instituição privada onde se declamava poesia, se 

fazia apresentação de músicas, possuía uma tribuna para explanações e conferências diversas, local para encenação de pequenas peças teatrais, além de também possuir uma Biblioteca, a primeira de Caruaru, aberta ao público em geral, na época com mais de 300 livros e vários números de jornais. 

Nas suas dependências, também aconteciam após as apresentações literárias e culturais, bailes dançantes que duravam, vias de regra, até às 5 horas da manhã do dia seguinte, isso em uma época que não existia energia elétrica. Faziam parte desse clube além de pessoas como Juvêncio Mariz e Gregorinho, o cel. João Vieira de Mello, Donaninha Pegot – esposa do farmacêutico francês Jean Pegot – a senhora Maria Pinto Vieira de Mello, conhecida como dona Sinhá, segunda esposa do cel. João Vieira, mãe do primeiro ministro caruaruense Alfredo Pinto e primeira pianista da cidade, o professor Vicente Monteiro e vários outros. 

Esse clube sócio-cultural-recreativo, no ano de sua fundação em 1883, tinha 70 sócios efetivos e mais de 200 honorários, também mantinha duas escolas noturnas, uma para moças e outra para rapazes, com o intuito de difundir a cultura e conhecimentos para a população. 

O conselheiro Rosa e Silva, morador do Recife e maior liderança de Pernambuco nas duas décadas seguintes, chegaria inclusive a vice-presidente da república, um dos sócios honorários do clube, doou vários livros para a Biblioteca, além de anualmente ofertar 50$000 (cinquenta mil réis) para ser doado como prêmio e incentivo aos melhores alunos, rapaz e moça, das duas escolas. O doador do sino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição no ano de 1883, Francisco Gomes de Miranda Leal, também foi sócio honorário do Clube. 

Todo esse movimento cultural, após ter acontecido à fundação da terceira e quarta bandas musicais da 

cidade, a Nova Euterpe originada da Liberal em 22/03/1896, e a Comercial originada da Conservadora em 02/03/1900, além do nosso primeiro jornal “O Vigia” em 1899, resultou na fundação em 19/04/1902, por Antônio de Moraes Silva Pimentel, do primeiro teatro de Caruaru, o “Clube Dramático Caruaruense”, que se localizava na Rua Duque de Caxias, com apresentação da peça “O Médico das Crianças”. No ano seguinte, já municipalizado, esse teatro passaria a se chamar “Theatro Municipal”. No seu palco foram exibidas várias peças, se apresentaram diversos artistas, entre eles, no ano de 1903, Dolores Lima, na época considerada a maior atriz brasileira, cuja companhia se encontrava em excursão pelo Nordeste. 

A própria União Caixeiral Caruaruense – precursora do atual Sindicato dos Comerciários – fundada em 06/01/1911, também um clube social e filantrópico, possuía nas suas dependências um teatrinho para apresentação, abertas ao público em geral, de pequenas peças. No ano 01/07/1917 foi fundada a primeira Biblioteca Pública por inspiração do ex-prefeito Henrique Pinto, durante a administração do prefeito João Guilherme de Pontes. A partir da segunda e terceira década do Século XX, a cidade ficaria marcada pela forte presença do escritor, jorna-lista, teatrólogo e diretor Mário Sette, com a encenação de várias peças de sua autoria, acon-tecimentos esses que dariam origem à formação de uma escola de atores e atrizes. 

Finalmente, passando por José Condé, Álvaro Lins, Augusto Tabosa, Henrique Pinto, Belí-sio Córdula, Major Sinval, sua filha Cacilda Santos, Limeira Tejo, Petrônio Santos, Vitalino, Lui-za Maciel e mais recentemente por Vital Santos, Manoel Eudócio, Carlos Fernando e tantos outros filhos naturais ou adotivos da mais intelectualizada cidade do interior pernambucano. 

ENGENHEIRO CIVIL, PESQUISADOR E HISTORIADOR

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