Moda e o Teatro

Antes de tudo confesso que não tenho expertise em moda. Minha vivência aproximada é com o teatro desde os idos de 1968, quando pela primeira vez tive contato por meio de um colega, no colégio no qual éramos internos. Naquela oportunidade, juntos elaboramos um ensaio e o encenamos em uma festividade no colégio. Pois é… Por aí me dispus em primeira mão a ler a respeito dos cultos dionisíacos, cuja representação simbólica da morte e da ressurreição do deus Dionísio estariam relacionados ao gênero dramático do teatro grego. Nele, os atores fazem uso de grandes máscaras. Quando a representação referia-se às divindades, a aparição do deus fazia-se ex machina.

Mas o que moda tem a ver com teatro? Vamos adiante. Para início de conversa, moda mantém estreita ligação com sociedade e esteve sempre presente no teatro quer nas roupas dos frequentadores, quer no figurino dos espetáculos teatrais. Por sua vez, o teatro esteve sempre ligado à evolução do homem que através dele manifestou sentimentos, anseios, crenças, contou histórias, e louvou aqueles deuses ligados à natureza.

Mas vamos passar as vistas nas escrituras sagradas e o que temos? Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais. E fez o Senhor Deus a Adão e à sua mulher túnicas de peles, e os vestiu (Gn 3:7,21). É, foi assim nos primórdios e o homem deixou registrado nas paredes das cavernas que usou vestimentas provavelmente para se proteger das condições desfavoráveis a que estava exposto diante das intempéries, também para ocultar sua nudez, ou mesmo por exibição, adornando-se para se diferenciar e/ou para expressar seu status social, sua vinculação étnica e cultural.

Embora ninguém saiba ao certo como e quando surgiram as artes cênicas, consideremos que o teatro apareceu na Gré- cia Antiga, no século IV a.C., em decorrência das festas de caráter religioso em consagração a Dionísio. Estas festas realizavam-se no início da primavera por meio de rituais nos quais os adoradores do deus do vinho, da fertilidade e do teatro buscavam a transcendência com o divino. Dançavam, bebiam vinho e entoavam cânticos homenageando seu deus. O ator grego Téspis – durante uma dessas festas – representou pela primeira vez o deus Dionísio.

Até a metade do século XVIII não existiu preocupação com a adequação do traje ao personagem tal qual hoje em dia. Mas na França barroca foram criados verdadeiros “trajes luxuosos de teatro”. Nesse século, a moda aqui no Brasil restringia-se à versão de modelos franceses copiados e trazidos ao país pelos portugueses.

No século XIX dava-se início a relações mais consistente entre moda e teatro. O uso de figurinos teatrais experimenta mudanças relevantes e, em relação à moda propriamente dita, os homens deixam de usar roupas que mais pareciam fantasias e passam a usar trajes mais sóbrios. No século seguinte, as mulheres libertaram-se dos espartilhos, passando a usar vestidos soltos que lhes davam a sensação de liberdade corporal. As cores pálidas do século anterior deram lugar a cores coloridas e o teatro em sua evolução promove mudanças estruturais nas salas de espetáculos, com melhorias na iluminação cênica, na incorporação de novos efeitos visuais e até mesmo na atitude comportamental de seus atores. Passa a trata de questões políticas e reflete criticamente aspectos da sociedade vigente, tornando-se uma arte extremamente rica. O figurino passa a ser parte fundamental não só no processo do espetáculo, mas principalmente da composição da personagem.

Assim cada vez mais a moda se aproxima dos movimentos artísticos nos quais muitos de seus estilistas ao longo da história têm se inspirado para a criar suas coleções. Nessa perspectiva, atualmente, a moda se vale das estruturas das artes cênicas, a exemplo da cenografia, efeitos especiais, som e coreografias, e até mesmo da inspiração das personagens criadas para desfiles criativos e deslumbrantes.

Agildo Galdino Ferreira

Membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, e possui doutorado em Ecologia e Recursos Naturais.

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