Na Roça e na Rua, a tradição do povo nordestino

O ciclo Junino é o período no qual florescem todas as manifestações rurais do nordeste, a partir dos seus múltiplos elementos culturais. Especificamente no quesito moda, o povo nordestino mantém uma autenticidade que o identifica nos quatro cantos do mundo. Nos primórdios do Brasil rural, os tecidos mais rústicos tinham a preferência para o trabalho no campo, eis a razão pela qual predomina o trinômio “brim”, “algodão xadrex” e o popular e colorido “xita”, tecido esse utilizado para decorar os espaços onde acontecem os festejos, como também os locais onde ficam a trindade santa do evento: São Pedro, Santo Antonio e São João, esse último o dono da festa.

Na indumentária sertaneja, tem espaço ainda como vestuário do vaqueiro, o gibão, perneiras, luvas e chapéu de couro, elemento este extraído de bodes ou dos bovinos da região. Eles compõem a armadura que permite ao homem campestre adentrar na caatinga, espaço permeado por gravetos, espinhos, mandacaru, e uma infinidade de plantas rudimentares, que desafiam as secas e a própria convivência do homem e seu habitat, no ritual que deu origem a Vaquejada.

Para os homens, fica adequado o uso de camisa mangas compridas, de preferência xadrex, e as mulheres usam belas saias rodadas, multi coloridas. Mas a grandeza do evento tem vários aspectos, como a matriz musical de Luiz Gonzaga, nosso inventor musical, intérprete de xotes, xaxados e baiões, esses ritmos, variações musicais do forró, que o denominaram Rei do Baião. Tem os bacamarteiros, referências aos soldados da Guerra contra o Paraguai, no Brasil Império. Os balões e sua origem na distante China, inicialmente feitos de bambu e seda, utilizados como sinaleiras nas torres da muralha gigante. A beleza coreográfica das quadrilhas francesas, adaptadas para os terreiros nordestinos.

A religiosidade dos três santos ora citados, e a devoção ao Padre Cícero, cearense referência na devoção nordestina. O xaxado, ritmo definido pelos cangaceiros, nas suas horas de diversão, sob o comando de Virgulino Ferreira, outro pernambucano rei, denominado o Rei do Cangaço. A riqueza da nossa culinária, a pamonha, canjica, cuscuz, cocada, pé de moleque e outras guloseimas, são indispensáveis na fartura das mesas rurais. Em sua edição 2017, o ciclo junino em Caruaru contempla a Roça e a Rua, promovendo as manifestações nos distritos rurais e na cidade, interligando tradições e modernidades no mesmo ambiente social. Ao tempo que temos no pátio de eventos Luiz Gonzaga a grandeza de uma arena festiva, vivemos outrora a festividade nas ruas da cidade, 03 de Maio e suas saudosas Irmãs Lira, fazedoras da alegria local.

Um capítulo especial é o elenco de artistas de nome nacional, gigantes do passado ou personalidades atuais, mas com muita história, a exemplo do Trio Nordestino que cantou a beleza poética de “Capital do Forró”, composição musical de final dos anos 70, oriunda da mente criativa e alma iluminada de Jorge de Altinho, esse também um forrozeiro espetacular. Para não cometer o deslize de esquecer nomes, não vou citar os inúmeros artistas, anônimos ou famosos, urbanos ou rurais, que fazem, juntos, esse espetáculo folclórico, em nome da alegria, cultura, história e tradições dessa nação que une nove estados, numa corrente nordestina de vida, fé e esperanças. Viva São João, São Pedro e Santo Antonio, Viva o Nordeste, Viva o Povo Brasileiro.

José Urbano
Historiador. Técnico em Educação da UFPE. Membro da ACACCIL

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