O Baque Solto dos Guerreiros da Cultura

O dia mal amanhece nas ruas da pequena cidade da Zona da Mata Norte, e a fila de agremiações, com todas as suas cores e adereços, já se forma, ocupando uma via inteira que leva ao centro, exatamente em frente ao palco montado para o reinado de Momo, para um dos mais tradicionais encontros do carnaval de Pernambuco.

O município de Nazaré da Mata, a apenas 72 quilômetros do Recife e a 141 quilômetros de Caruaru, é onde se reúnem, toda segunda-feira de carnaval, dezenas de grupos de maracatu de baque solto, também conhecidos como maracatu rural ou maracatu de orquestra. Os grupos de maracatu rural têm, no caboclo de lança, seu personagem mais emblemático. Devido à tal importância, esta figura tornou-se um dos maiores símbolos da cultura pernambucana.

Não é à toa o principal encontro das agremiações acontecer na localidade. Embora existam grupos de maracatu rural em diversos municípios do interior de Pernambuco – estima-se que mais de cem em atividade na zona da mata, e até mesmo alguns em outros estados – Nazaré concentra o maior número de grupos, sendo conhecida como a capital do maracatu.

Não se sabe ao certo a origem da manifestação, mas há duas linhas teóricas. Um grupo de pesquisadores acredita que que esses grupos tiveram origem numa mistura das culturas afro-indígenas. Já outra corrente, crê que seja uma junção de diversas outras manifestações da cultura popular, como bumba-meu-boi, cavalo marinho, entre outros.

Embora os primeiros grupos de maracatu de baque solto tenham surgido no final do século XIX, esse ritmo, assim como seus personagens, não eram muito conhecidos no carnaval do estado até o início da década de 1930, pois nasceram no interior. Mesmo assim, graças a tamanha representatividade que carrega, juntamente com seu chapéu, sua lança e seu chocalho, o caboclo de lança ganhou uma importância imensurável não apenas para o maracatu rural ou para o carnaval, mas para a cultura popular de Pernambuco como um todo.

No total, quase quarenta grupos de maracatu estão em formação para se apresentar no encontro de Nazaré da Mata. A praça em frente ao palco está tomada por pessoas que vêm dos mais diversos lugares para contemplar a evolução daqueles que vestem as fantasias, gente humilde, em sua maioria trabalhadores rurais e cortadores de cana, que passam um ano inteiro costurando e bordando suas vestimentas.

Naquele momento, essas pessoas simples se transformam em reis, rainhas, guerreiros. Guerreiros que carregam consigo o peso de toda uma cultura, e, com sua lança e sua armadura multicolorida, defendem uma das maiores tradições do nosso carnaval.


Texto e fotos por Leonardo Araújo

Leonardo Araújo é documentarista, fotojornalista, produtor de conteúdo e editor do blog Culturas & Fronteiras (culturasefronteiras.leonardo-araujo.com). www.leonardo-araujo.com E-mail:contato@leonardo-araujo.com Instagram: @leoaraujofoto
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