O brilho do existir

A sociedade tem grande facilidade em identificar o que se convencionou chamar grandes personagens da história. Pessoas que, pela sua atuação na política ou em outros campos como os da ciência, literatura, artes, esportes, têm influência sobre milhares, milhões, bilhões de seres humanos. Há até uma corrente historiográfica que atribui o progresso e as conquistas da humanidade à ação desses indivíduos que se destacam.

Não há duvida de que eles cumprem um papel importante, fundamental. Porém, não exclusivo.

Para desdobrar um exemplo já bastante citado: o que seria do general sem soldados? Do engenheiro sem peões? Do político sem seguidores? Do comunicador sem audiência?

O papel das “pessoas comuns”, no entanto, vai muito além de atuarem como figurantes ou plateia no grande teatro da vida. Cada pessoa que vem ao mundo é uma estrela que se acende no firmamento. O seu julgamento, que só é definitivo após a morte, não parte de grandes obras, mas da capacidade que teve de ser feliz e contribuir para a felicidade alheia. Dos que estão próximos. Dos que amam e são amados. Dos que recebem gestos de afeto, de carinho, de apoio. Dos que se inspiram com a beleza, a força, a paciência, a generosidade.

Ser grande na planície é mais desafiador do que parecer grande no alto da montanha. Uma existência se consagra nas pequenas coisas. Na simplicidade do dia a dia. Na solidariedade do cotidiano. No brilho que emana do seu ser, sem que faça nenhum esforço para isso e sequer perceba que vive banhada de luz. A diferença de uma vida dita comum para a trajetória de uma estrela também comum, das tantas que povoam o firmamento, está na duração da existência. Na verdade, pensando melhor, retiro a comparação com as estrelas. Substitua por cometa, a metáfora é mais adequada à época natalina. Passeia pelo céu sem consciência da sua trajetória e da influência que pode causar. Porém, nunca passa sem despertar admiração, espalhar beleza, inspirar emoções. Como a estrela de Belém. E quando se vai, faz falta. Deixa uma marca impossível de substituir.

Ao contrário de muitos “grandes personagens”, cujas partidas causam tantas vezes alívios e alegrias.

A felicidade no mundo é feita por pessoas que conseguem vencer o mal e semeiam o bem. Não importa o quanto semeiam mas a qualidade da semente. Que, somada a muitas outras, faz parte essencial e eterna do milharal da existência. Um enorme viva para as “pessoas comuns”.

Para o brilho dos seus olhos. Para o simbolismo de, sendo igual a multidões, constituir uma pessoa única.

Personalidade é a palavra chave. Viver em paz, com boa vontade, o grande segredo. E isso, nunca é esquecido nem sai de moda.

José Nivaldo Junior
Historiador. Consultor em comunicação. Da Academia Pernambucana de Letras.

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