O garoto que portava Deus

“Naquela hora, aproximaram-se de Jesus os discípulos, perguntando: Quem é, porventura, o maior no reino dos céus? E Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles. E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus”. (Mateus 18:1-3)

Reza a lenda que a criança à qual Jesus apresentou no episódio acima descrito, anos mais tarde, teria se tornado Inácio, o bispo de Antioquia. Na realidade, pouco sabemos sobre a infância e juventude deste que se tornou um dos mais reverenciados mátires do cristianismo primitivo. Sabe-se, contudo, que ele possuía o apelido de ‘Portador de Deus’, um grande indicativo que seu estilo de vida piedoso era reconhecido por toda a comunidade da época. Pelos idos do ano 107, Inácio foi condenado à morte pelas autoridades por se recusar a adorar os deuses do Império Romano. Enquanto caminhava para o martírio, o bispo escreveu uma literatura valiosa e inspiradora: sete cartas – direcionadas às igrejas de Éfeso, Magnésia, Trales, Roma, Filadélfia e Esmirna; e ao bispo Policarpo – que retratam a vida e o pensamento da igreja do começo do segundo século.

Vamos destacar a carta de Inácio aos efésios, na qual ele ressalta a encarnação de Deus em Jesus no tempo da natividade:

“Então, toda magia foi destruída, e todo laço de maldade abolido, toda ignorância dissipada e todo reino foi arruinado, quando Deus apareceu em forma de homem, para uma novidade de vida eterna. Aquilo que havia sido decidido por Deus começava a se realizar. Tudo ficou perturbado no momento em que se preparava a destruição da morte.” (Epístola aos Efésios 19.3; Biblioteca de Autores Cristãos-BAC 65: 458)

Ora, se a tradição estiver correta, aquela criança que foi abraçada por Jesus adulto tornou-se um notável pregador da mensagem de Jesus, o Deus que Se fez criança. Tal assunto era bastante pertinente naquela época, em que dois grupos discordavam sobre a natureza de Cristo. De um lado, havia os ‘ebionitas’, que viam em Jesus um ser humano como os profetas do passado; de outro lado, os ‘docetas’ ensinavam que o Messias havia sido um ente puramente celestial, com aparência de humano. A mensagem de Inácio, neste contexto, aponta para um equilíbrio ao compreender que Jesus foi, ao mesmo tempo, plenamente humano e divino – como os concílios de Niceia e Constantinopla iriam asseverar no IV século: “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”.

Na mesma carta, Inácio explicita de forma bela e enfática o conceito de Cristo como Deus encarnado:

“Existe apenas um médico, carnal e espiritual, gerado e não gerado, Deus feito carne, Filho de Maria e Filho de Deus, vida verdadeira na morte, vida primeiro passível e agora impassível, Jesus Cristo, nosso Senhor.” (idem, 7.2; BAC 65: 451-52)

A mensagem de Santo Inácio continua viva e necessária para o século XXI. Em meio à obscuridade do pluralismo hipermoderno, o ser humano carece do abraço do Salvador, a exemplo da criança registrada no livro de Mateus. Destarte, reconhecer Cristo como o Deus que se fez carne e habitou entre nós produz implicações na vida prática. Há de se cuidar das necessidades dos outros, oferecendo alimento ao faminto, remédio ao enfermo, consolo ao desabrigado e proclamar a salvação para as almas extraviadas.

Jénerson Alves
Jornalista e poeta

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