O inimigo ainda desconhecido

No início da pandemia eu escrevi que aqueles donos da verdade, que ocupavam horas e mais horas por dia na televisão ditando regras, simplesmente não sabiam do que estavam falando. Hoje, depois de mais de um ano de sofrimento e pessoas mortas contadas aos milhões, a humanidade avançou bastante. No entanto, o inimigo invisível continua correndo na dianteira.

O ser humano é um poço de contradições. O que move o mundo, desde sempre, são engrenagens econômicas poderosas, que moldam a organização social, a política e as próprias formas de pensar e entender a sociedade. Somos, também desde muito tempo, animais que se apaixonam. E as paixões nos dominam. Na vida pessoal, na política, no futebol, nas causas que abraçamos.

Com relação à pandemia não é diferente. Os interesses econômicos estão por trás de tudo. Esses interesses, muitas vezes, são invisíveis como o vírus. Mas estão aí. A própria vacina é um encaminhamento indispensável que movimenta bilhões de dólares ao redor do planeta. Em última instância, um negócio como outro qualquer.

Só a paixão, criada por essas engrenagens imperceptíveis, é capaz de justificar o furor com que se combateu e combate o chamado tratamento precoce da Covid-19. Verdade que alguns políticos, a exemplo de Trump e Bolsonaro, politizaram o debate. Mas remédio até tem cor, mas certamente não tem partido. Não entendo nada de remédio. Mas conheço a cláusula da Declaração de Helsinque que regulamenta as atividades médicas no mundo. Ali está estabelecido que o medicamento utilizado no tratamento de qualquer doença é uma decisão exclusiva da relação médico/paciente. Ponto. Qualquer especialista na área de saúde tem direito de externar livremente suas opiniões sobre as receitas da sua preferência. Mas ninguém, absolutamente ninguém, tem a prerrogativa de se meter na liberdade do médico indicar e do paciente aceitar qualquer prescrição razoável. O debate, nesse nível, nem deveria existir. É incrível que aconteça.

Também fico perplexo com o comportamento dos políticos no mundo inteiro. Em certos momentos, parecem no mundo da lua. Apenas como exemplo, recentemente no Brasil a preocupação maior era com o orçamento. Dizem que um certo teto de gastos não pode ser ultrapassado no combate à pandemia e no socorro aos mais necessitados. Dá vontade de chamar um palavrão bem vulgar. Nem parece que estamos enfrentando uma guerra planetária. Não adianta preservar índices econômicos e sacrificar as pessoas. Quando vier a paz, trataremos de resolver outros problemas. Antes disso, temos que vencer o inimigo invisível, usar máscara, higienizar, manter o distanciamento. Festa e folia até dá rima, mas não combina com pandemia.

José Nivaldo Junior
Historiador. Consultor em comunicação. Da Academia Pernambucana de Letras.

 

1 Comment on "O inimigo ainda desconhecido"

  1. Parabéns professor. Artigo que mostra, com verdades o que muitos não conseguiram ver.

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