Paixão de Cristo – 50 anos de Fé e Arte no Agreste

Celebrado há pelo menos 20 séculos na história do Cristianismo, o ato narrado nos evangelhos que descreve os momentos finais da trajetória de Jesus Cristo, tem um endereço personificado no nordeste brasileiro: Pernambuco, região agreste, Nova Jerusalém, comunidade pertencente ao município de Brejo da Madre de Deus.

Localizada a 200 km de Recife, a paisagem tem 90% de semelhança com a Judeia e Palestina dos tempos de Jesus, e foi o cenário escolhido pelo visionário e brilhante gaúcho Plínio Pacheco, que nos idos de 1956, chegou à comunidade, e conheceu o espetáculo, ainda amador, feito pela própria população, desde 1951, graças a uma iniciativa do Sr. Epaminondas Mendonça, que viria a se tornar seu sogro, por ser o pai de Diva Mendonça, esposa e idealizadora também. Homem culto, amante da história, Plínio tratou de escrever o texto em linguagem teatral, definindo as linhas gerais do evento, até os nossos dias.

Em 1963, começou a construção das muralhas. Milhares de homens, agricultores, gente valiosa e simples, emprestaram tempo e talentos, talhando a pedra, aplainando o terreno, dia após dia, gente do local, como o casal José Tomaz Bezerra, o seu “Zuza” e a sua simpática esposa, D. Maria Rosa, que entrevistei recentemente, falam com brilhos nos olhos daquela década e sua missão. No ano de 1968, após anos de projetos, busca de parcerias, seleção de pessoas, planos de mídia e inúmeros aspectos, aconteceu o primeiro espetáculo na cidade teatro de Nova Jerusalém, um empreendimento de 7 portas e 70 torres, 100 mil metros quadrados, 1/3 da área murada da Jerusalém no século I.

Meio século depois, 3,8 milhões de pessoas já adentraram as muralhas e assistiram ao espetáculo em toda a sua beleza estética, histórica, bíblica, cultural e essencialmente nordestina, acima de tudo. A encenação, que inicia com o Sermão da Montanha e encerra com a Ressurreição de Jesus, reúne 50 atores e 400 figurantes, é cuidada nos mínimos detalhes com nove palcos, efeitos de som, luzes, fogos, figurinos, cenários e a fidelidade histórica, capaz de refazer a própria história, como se fizesse o público espectador entrar num “túnel do tempo” e regressar para aquela época, ver e tocar nesse fato de proporções universais.

50 anos celebrados em 2017, desde o cenário em pedra até o mais graduado profissional, indiscutivelmente o Teatro e a beleza do espetáculo, transpassaram as fronteiras do Brasil, são reconhecidos internacionalmente, e mostram com muita clareza a capacidade do ser nordestino e todo o seu talento, mesmo diante de tantas adversidades, lidar com a dureza da pedra, esculpir curvas nas linhas retas, plantar flores entre rochas, imprimir uma marca de fé e ação, em nome da sua crença e da história cristã, universal. É única a capacidade de transformar pedras em monumentos, só com uma sensível e refinada entrega ao ofício, foi possível obter um resultado ímpar, é assim o nordestino. Plínio nos deixou aos 76 anos, e foi para a eternidade, contemplar do alto a grandeza de sua obra feita por muitas mãos.

“A vida colocou-me diante da pedra e da figura de granito, que é o homem nordestino” (Plinio Pacheco).

Nova Jerusalém, Paixão de Cristo, dois milênios de história, 50 anos do encontro da arte com a fé e o talento do povo nordestino. Viva Plínio, viva o teatro, viva a cultura nordestina.


José Urbano
Técnico em Educação da UFPE. Membro da ACACCIL

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