Tradição, Cultura e Fé

Em Procissão, os vaqueiros, devidamente caracterizados, alguns carregando as bandeiras do Brasil, Pernambuco e municípios do sertão, adentram o Parque João Câncio para dar início à Missa do Vaqueiro

No sertão de Pernambuco, uma festa de quase cinco décadas conta a história de um homem, mas também representa a luta e a cultura de todo um povo.

São quase dez da manhã do domingo quando o cortejo desponta na estrada, em meio à poeira e sob o sol inclemente do semiárido nordestino. Em procissão, os vaqueiros, devidamente caracterizados, vindos de diversos lugares do sertão, não apenas de Pernambuco, mas também de outros estados da região, vão se aproximando do Parque Estadual João Câncio, na zona rural do município de Serrita, para um momento ímpar, esperado por um ano inteiro: a Missa do Vaqueiro.

A Missa teve seu início em 1971, idealizada por Padre João Câncio, à época, pároco do município de Moreilândia, inspirado pela música “A morte do vaqueiro”, composta por Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho, em protesto pelo assassinato sem solução, em 1954, do vaqueiro Raimundo Jacó, primo legítimo do Rei do Baião, muito conhecido no sertão como o maior vaqueiro da região, pela sua coragem e bravura, despertando a admiração de alguns e a inveja de outros.

Padre João Câncio, então, propôs à Gonzaga a realização de uma missa, em homenagem a alma de seu primo, no Sítio Lages, local onde Raimundo foi encontrado morto com uma pedrada, como pedido de justiça pelo impune homicídio. Desde esse momento, todos os anos, a celebração reúne vaqueiros de todo o sertão, que vêm à Serrita rezar por Raimundo Jacó, e por eles mesmos, pois, o movimento que foi criado em memória de um homem, tornou-se o símbolo da luta e das conquistas de todo um povo.

“A Missa representa o homem bravo da caatinga”, diz o Senhor Pedro Targino de 81 anos. Ele esteve em 47 das 48 celebrações e, pelo segundo ano consecutivo, adentra o evento carregando a bandeira de Salgueiro, seu município de origem, dizendo ser sua maior satisfação e relembra as palavras de Padre João Câncio: “A Missa é do povo, é do vaqueiro”. Já o Senhor Oliveira de 55 anos, e que há dezoito viaja de Rio Formoso, no litoral sul, à Serrita para assistir à Missa, ao entrar com a bandeira do Brasil, diz que é uma honra: “Sou um patriota, amo minha pátria”.

As festividades que compõem a Missa do Vaqueiro de Serrita têm início na quinta-feira e vão até o domingo, quando ocorre a celebração religiosa. No entanto, também há as atividades profanas, como a vaquejada, a pega de boi no mato e os shows musicais que acontecem à noite no palco montado no Parque Estadual João Câncio, atraindo sempre grande público e uma boa quantidade de turistas. Isso mostra que a Missa não tem apenas importância religiosa e cultural para a região, mas também uma enorme importância econômica para os municípios em seu entorno, pois movimenta a rede hoteleira, bares, restaurantes e o comércio da cidade e dos municípios próximos. Mesmo com a geração de emprego e renda proporcionada pelo evento, a Fundação Padre João Câncio, que organiza todos os anos o acontecimento, vive uma verdadeira peleja para manter viva a tradição da Missa, pois é muito dependente de repasses do Governo do Estado,que nem sempre chegam, e algumas edições já correram o risco de não acontecer. “Não é fácil fazer a Missa do Vaqueiro, é pesado. Mas no final das contas é prazeroso, é recompensador”, diz Helena Câncio, presidente da Fundação ao falar das dificuldades. Segundo o cantor Josildo Sá, que há quatorze anos canta no evento, é um grande prazer e uma grande honra fazer parte da Missa, e uma emoção que se renova a cada ano: “A gente vê a resistência dos vaqueiros, acompanha o trabalho de Helena Câncio e da Fundação João Câncio, uma luta pra conseguir manter essa missa viva”. Josildo é natural de Floresta, no sertão do estado, e tem orgulho do sangue de vaqueiro que corre em suas veias.

Vai se aproximando o meio dia e o sol está a pino, quando se aproxima um dos momentos de maior emoção da Missa: o ofertório. É quando os vaqueiros vão, montados em seus cavalos, ao altar e oferecem seus objetos característicos, como o chapéu, o gibão, a perneira e até a sela de sua montaria. Os pertences são entregues pessoalmente ao celebrante, que os coloca aos pés do altar. Assim, a Missa se encaminha para a comunhão e depois para sua benção final, recebida pelos participantes com a fé de que no ano seguinte estarão novamente no maior evento de devoção do sertão de Pernambuco.

A imagen Nossa Senhora Aparecida está presente durante toda a celebração nas mãos dos vaqueiros que acompanham a Missa

A Missa do Vaqueiro é um dos momentos de maior devoção para as pessoas simples do sertão

Um dos momentos de maior emoção da Missa: o ofertório, quando os vaqueiros oferecem seus objetos característicos, que são colocados aos pés do altar

A pega de boi no mato é uma das atividades que fazm parte dos festejos da Missa do Vaqueiro, e atrai um grande número de participantes

Leonardo Araújo Documentarista, fotojornalista e produtor de conteúdo, caçador de novos lugares, novos olhares, novas histórias… www.leonardo-araujo.com – contato@leonardo-araujo.com Instagram: @leoaraujofoto – Celular: (81) 9 8804-1247

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