Um Mito Nordestino E A Sustentabilidade

Despropositadamente, vieram-me lembranças do rio São Francisco, em especial da represa de Três Marias, um dos barramentos construídos ao longo deste e onde realizei pesquisas, entre os anos de 1996 e 97, que resultaram em artigos científicos publicados pela Universidade Federal de São Carlos. Dali, do Velho Chico, fui levado ao município de Ipu, no Ceará. Ali nascera em 5 de junho de 1863, em pleno período escravagista, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia de quem muito já se falou. Mas nunca é demais rememorar um passado epopeico, vivido tão pioneiramente em terras nordestinas, principalmente diante de tantos descalabros por que passa hoje nosso país.

Delmiro Gouveia

Enfim, quem é Delmiro Gouveia? Autodidata, brilhante identificador de oportunidades, homem de extraordinária visão de futuro. Visionário, estava à frente de seu tempo, empresá- rio ousado e de mentalidade inovadora, obstinado pela modernidade. De criança que experimentou a pobreza extrema para o ápice como empresário, pioneiro da industrialização nordestina e mesmo com “seus vícios, virtudes e defeitos da sociedade de seu tempo”, foi um gigante empreendedor de sua época. Do Ceará, partiu para o Recife. Ali, Belmiro construiu o mais moderno centro comercial e de lazer da América do Sul. O Mercado do Derby, onde hoje é o quartel general da Polícia Militar, foi inaugurado em 7 de setembro de 1899.

Por esse empreendimento, pode ser tido como o precursor do shopping center no Brasil. Entretanto não agradou a seus opositores (e concorrentes) e na madrugada do dia 2 de janeiro de 1900, um incêndio criminoso destruiu o Mercado do Derby. Após esse acontecimento e com a falência de suas empresas, Belmiro vai à Europa e traz no seu matulão alguns maquinários (geradores e turbinas) e na mente a ousadia que sempre lhe foi peculiar. Em 1903, chega a Pedra, lugarejo no sertão alagoano formado de casas de taipa e sapé, chão de terra batida. É justamente neste lugar que Belmiro vai recomeçar sua vida. Transforma-o em polo industrial no início do século XX. Para isso, constrói a primeira usina hidrelétrica no rio São Francisco – batizada de Angiquinho – que é inaugurada em 1913, sendo hoje um dos mais importantes complexos hidrelétricos do mundo.

Vale lembrar que o desenvolvimento sustentável pressupõe integração. Não mais privilegia apenas o lucro, estar atrelado a outras necessidades básicas a exemplo de não poluir, e ações sociais. Nesse contexto vamos nos deparar novamente com Delmiro Gouveia, empresário preocupado com a sustentabilidade de seus empreendimentos. O Mercado do Derby é um exemplo de integração, o qual incluía mercado, hotel, cassino, velódromo, parque de diversões e loteamento residencial traduzindo modernidade, progresso e civilidade.

Ao implantar em 1914 a primeira fábrica têxtil do Nordeste na cidade de Pedra, hoje Delmiro Gouveia, incontestável homenagem a sua contribuição à região, além da sustentável hidrelétrica de Angiquinho, foram abertas estradas ligando Pedra a outras localidades. Foram também construídas casas – vilas operárias – com saneamento básico, água encanada, energia elétrica, escolas, creche, tudo gratuito, promovendo qualidade de vida e o bem-estar de seus moradores. O empreendimento tornou-se uma das principais fontes de emprego para a população e já respeitava a jornada de trabalho de oito horas, que só viria virar norma décadas mais tarde. Criou procedimentos baseados na ecologia, com noções de higiene e lições de irrigação. O uso de armas não era permitido. Tudo isso em bioma estritamente nordestino – a caatinga – no sertão alagoano. A fábrica têxtil Estrela tornou-se um modelo para a época. Chegou a empregar cerca de dois mil operários a ponto de incomodar muito o truste inglês da tecelagem a Machine Cottons, poderosa fábrica inglesa.

Delmiro Gouveia foi assassinato à bala e seus herdeiros acabaram rendendo-se à pressão da fábrica inglesa que comprou em 1929 o empreendimento e mandou destruir todo o maquinário e atirá-lo ao rio (1930). As linhas Estrela da fábrica de Pedra foram substituídas pelas linhas Corrente, da Machine Cottons. A sua morte em 10 de outubro de 1917, levou o escritor Graciliano Ramos a escrever: “E os cavalos, despertos por Gouveia, adormeceram de novo na cachoeira magnífica, celebrada em prosa, imortalizada em verso, apontada com orgulho, sinal da nossa grandeza”.

Agildo Galdino Ferreira

Membro da Academia Caruaruense de Cultura, Ciências e Letras, e possui doutorado em Ecologia e Recursos Naturais.

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