Assim nasceu um rei nordestino

O verão daquele ano 1912 foi intenso, característica climática no sertão pernambucano. E principalmente em dezembro, mês de novenas e pedidos para que o ano novo seja fértil de chuvas. Até a primeira semana do mês, dona Santana puxava o cântico em latim das reuniões nas residências simples do Araripe, mas não pôde dar continuidade às práticas das rezas desde o último fim de semana, pois estava nos dias finais de sua segunda gestação. Mãe do Joca, ou José Januário – seu nome de batismo – ela estava nos preparativos para receber o segundo bebê, sem saber se seria menino ou menina, apenas pedia em orações que viesse com saúde, para enfrentar as tantas adversidades naturais a todos os sertanejos.

No final da tarde da quinta feira, dia 12 de dezembro, a jovem gestante ainda estava com disposição para os afazeres domésticos, a varrição do chão batido da singela residência, coser algumas peças de roupas, e além do almoço, preparar a janta para Januário, o esposo que passava horas a fio desmontando, ajustando, fabricando peças, montando e afinando os vários foles de 8 baixos da marca Honner, que lhe garantia boa parte da renda familiar, reforçada pela fabricação e vendas das cordas de caroá, comercializadas na feira de Exu.

O cardápio era bem simples: cuscuz com leite, uma carne de bode, alguma caça dos animais da redondeza, bolacha seca, café torrado, leite de cabra, rapadura para adoçar, macaxeira com manteiga de garrafa. Tudo servido no comecinho da noite, na sala pequena, iluminada pela luz do candeeiro. Januário com Joca nos braços, com toda a paciência que lhe era peculiar, balançando a criança enquanto d. Santana se alimentava.

– Acho que você precisa descansar mais e sábado eu vou para a feira sozinho. A qualquer hora essa criança vai nascer e em casa fica melhor para isso! Disse-lhe Januário.

– Homem! Eu já tive um, sei como é, não sou mulher de abrir parada. Até o instante do cristão chegar, eu quero tá fazendo minhas coisas do meu jeito, se afobe não! Respondeu d. Santana. Quando chegar a hora, eu já avisei as minhas irmãs para ajudar você com o Joca, enquanto eu tiver de resguardo. Agora é esperar a hora que Deus e a Virgem Maria quiser.

Terminada a refeição noturna, alguns minutos na rede para facilitar a digestão, e vão para o quarto, chamado de camarinha, a singela família formada pelo casal e a criança de dois aninhos. Naquelas bandas se dormia muito cedo, pois na madrugada a lei era se levantar antes do nascer do sol!

Januário fez as orações de costume e a devota esposa também. A noite enluarada e sem nuvens, deixava correr uma brisa fria pelas frestas as janelas, portas e telhas, propiciando um clima ameno para uma boa noite de sono. Por fim, Januário apagou o candeeiro, escureceu completamente o ambiente e o silêncio tomou conta, ocasionalmente quebrado por um ou outro som da natureza, grilos, alguma ave noturna ou um chocalho que se ouvia ao longe.

Passados alguns minutos depois da meia-noite, portanto já dia 13, no calendário católico dedicado à memória de Santa Luzia, d. Santana desperta e fala ao marido: Homi, acorde, eu tô sentindo umas coisas, acho que vai nascer daqui há pouco! Vá chamar a parteira, que não vai demorar!

Prontamente acordado, Januário responde: Valei-me nossa senhora, apoi num é que pode ser mesmo? Vou num pé e volto no outro. Joca tá dormindo, vai ser sua companhia. Com o poder de Deus e a proteção de nossa Mãe Rainha, daqui há pouco essa criança chega no mundo!

Apreensivo, cuidadoso e também emocionado, ele acendeu o candeeiro, clareou o recinto, botou o rosário no pescoço, balbuciou uma oração, se benzeu, trocou a roupa e abriu a porta principal. Um vento frio da madrugada invadiu a pequena sala. Fechando-a em seguida, caminhou até a estrada principal e alguns metros adiante, chegou à casa da parteira, sua comadre. No caminho, fitou a beleza do céu estrelado naquela madrugada, onde a luz da lua clareava o caminho. E nesse instante, uma estrela cadente fez um rastro de luz no firmamento, bem diante dos seus olhos! Uma sensação de alegria invadiu o seu coração, uma “zelação” é sinal do cuidado Divino. No entendimento sertanejo, nascer num momento desses é sinônimo de ser portador de luz e construtor de felicidades.

Na volta para o lar, d. Santana já sentia as contrações do parto natural. No quarto, uma bacia de ágata branca com água para assepsia, toalhas, uma imagem de Nossa Senhora, a luz do candeeiro e tem início o trabalho de parto. Um misto de ansiedade, inquietação, alegrias, projeto de futuro, carinho pela esposa dominam a cabeça de Januário.

Os minutos passam, a madrugada avança, Joca dorme o sono dos inocentes, o calendário na parede assinala 13 de Dezembro, a festa para Santa Luzia. No cuidadoso ritual das sábias parteiras sertanejas, uma oração acompanha todo o trabalho, e no momento Divino, o choro da criança rasga a madrugada adentro, anunciando uma nova vida, portadora de muitas virtudes, e em destaque a força vocal que o fará trilhar diversos caminhos do bem, vencer obstáculos, criar estilo, estabelecer marcas. Viva Deus! Viva a Mãe de Deus! Viva a gente nordestina! Madrugada que prossegue, prenúncio de um novo dia, uma nova página na história da cultura nordestina começou a ser escrita naquela sexta feira, dedicada a Santa Luzia, 13 de dezembro de 1912, o primeiro dia de vida de Luiz Gonzaga do Nascimento, filho de Santana e Januário, irmão de Joca e para sempre nas páginas da história… O eterno Rei do Baião!

José Urbano
Prof. de história, palestrante, cordelista, radialista, técnico em educação. @joseurbano_

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