O São João do Reencontro. Do passado ao presente

O ciclo junino de Caruaru é a expressão máxima da identidade cultural nordestina. Tornou-se gigante, porém vem de uma origem distante, secular, a partir da raiz católica, com ênfase na celebração do trinômio junino, respectivamente o português Santo Antônio de Lisboa, e os personagens descritos nos evangelhos, João (que não tinha sobrenome, foi popularmente denominado de “Batista” vocábulo que o relaciona ao batismo do primo, Jesus Cristo) e o Pedro, batizado como Simão, e rebatizado como Pedro, ou Petrus, o apóstolo de Cristo. Com a chegada dos portugueses aqui, na empreitada de abril de 1500, vieram os católicos, e trouxeram o Cristianismo, na relação visceral entre Estado e Igreja. Dando um salto na história, na passagem de 1800 para 1801, o dono da Fazenda Caruru – José Rodrigues – investiu generosa quantia para celebração religiosa daquele ano, mostrando a nossa gênese festeira.

É fácil imaginar as celebrações caseiras na referida fazenda, os agricultores celebrando as boas colheitas em junho. Outro detalhe: a festa não é “junina”, mas o correto é Joanina, por ser dedicada ao João, apóstolo e primo já citado. No retrovisor dos fatos, no início da década de 70, Caruaru deve homenagem à família de Agripino Pereira, morador da rua São Roque, que junto com os vizinhos, organizou a decoração da rua com recursos próprios. Na segunda edição, trouxe para Caruaru o primeiro patrocinador do evento, a marca de aguardente Pitu, fábrica sediada na cidade onde nasceu a esposa de José Rodrigues de Jesus. Entre as décadas de 60 e 70, foram para as ruas de Caruaru as caravanas culturais dos radialistas Lídio Cavalcanti e Ivan Bulhões – ambos de saudosa memória – dando um impulso aos nossos cantores e músicos. Dessa época surgiram Azulão, Joana Angélica, Bau dos 8 Baixos, Leonora Moreno, entre outros talentos musicais. De compositores, foram revelados nomes da grandeza de Onildo Almeida, Janduhy Finizola, Nelson Barbalho (um trio Gonzagueano) e valores da força de Juarez Santiago, Genésio Guedes, Walmir Silva etc.

As irmãs Lira foram organizadoras do excelente São João na rua 03 de Maio, que cresceu a cada ano, foi transferido para a avenida Rui Barbosa e desde 1995 concentrado no Parque de Eventos Luiz Gonzaga, denominação proposta pelo Dr. José Carlos Rabelo, vereador da época, homenageando o Rei do Baião. A mais ninguém caberia essa denominação. Lá está a estátua do Gonzaga, feita pelo artista Caxiado, na gestão do ex-prefeito Tony Gel. Numa mistura entre tradições e modernidade, o evento recebeu uma denominação em 2017: na roça e na rua. Em sua edição 2022, mais de 20 polos complementam a grandiosa estrutura. Orçado em 17 milhões de reais, com 85% de contratação dos artistas regionais, as comidas gigantes e demais manifestações, como o colorido do Polo do Repente, da Poesia e do Forró, tornam a nossa programação incomparável. Outras cidades seguem o formato, numa escala bem menor, e não vejo como concorrência, mas complementações da cultura que tem a marca Luiz Gonzaga, o nosso Pernambucano do Século, por escolha popular. Esse ano foi o São João do Reencontro. Na roça, na rua, na palhoça, nas casas de eventos, nos clubes sociais, nas escolas, em cada artéria, cada canto da cidade, a magia junina nos abraça e nos alegra. É assim na cidade Princesa do Agreste, internacionalmente conhecida como a Capital do Forró. Viva Caruaru, a sua gente, as nossas tradições e a marca cultural, reconhecida pelo Brasil e aplaudida mundo afora!

José Urbano
Prof. de história, palestrante, cordelista, radialista, técnico em educação. @joseurbano_

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